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13 de Fevereiro de 2018 as 14:30

Polêmica no teor da cerveja. Malte ou xarope de milho?

Estudos recentes revelam que consumidores podem estar ingerindo mais milho do que o recomendável nas bebidas produzidas no Brasil

Com o Carnaval batendo à porta e um calorzão de ‘lascar’ em pleno verão, uma das preferências nacionais do brasileiro – e do alagoano, em especial -, é a festejada “cervejinha gelada”, como se diz na gíria por estas bandas. Porém, como bebida alcoólica mais consumida pelos brasileiros, e alagoanos, a cerveja pode conter em sua formulação muito mais do que água, cevada e lúpulo.

Um estudo recente do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo, divulgado recentemente, revelou que 77 marcas de cervejas, das quais 49 produzidas no Brasil e 28 importadas de países da Europa, América do Sul e do Norte e da China, mostra que apenas 21 delas podem exibir o selo “puro malte” por utilizar somente grãos de cevada.

As letras miúdas no rótulo das garrafas ou impressas na própria lata, em cores metálicas, que dificultam a leitura, dão algumas pistas: “cereais não maltados” ou “malteados”. O consumidor comum fica sem saber que ingredientes exatamente são afinal. Especialistas em nutrição, entretanto, não têm dúvidas. Em geral é o milho, o mais barato dos grãos, o escolhido pelos fabricantes para compor, com os demais ingredientes, uma bebida que pode ser vendida mais em conta para que não tenham de abrir mão da elevada margem de lucro.

Isso vai de encontro, por exemplo, ao que ocorre na Europa, principalmente na Alemanhã, onde por lá eles festejam neste ano 500 aniversários da chamada “lei da pureza da cerveja”. Há meio milênio, ela determina o que uma boa cerveja alemã deve conter e, ainda hoje, é seguida à risca pela maioria dos produtores do país. Essa lei promulgada em 1516 na Baviera é considerada a regulamentação mais antiga do setor alimentício ainda em vigor no mundo e se baseia em um decreto do duque Guilherme 4º da Baviera, que visava proteger os consumidores da época de produtos feitos com ingredientes tóxicos.

Por isso, em 23 de abril, dia em que foi promulgado esse documento, chamado localmente de “Reinheitsgebot”, será festejado em todo o país o “Dia da Cerveja”.

Este é um dos orgulhos da indústria cervejeira alemã, que alega produzir a bebida mais pura do mundo. Até hoje, a cerveja feita na Alemanha se limita, por lei, a quatro ingredientes básicos – além de água, malte de cevada e lúpulo a levedura de cerveja também foi incluída na lista com o passar dos anos.

No entanto, nem toda cerveja consumida na Alemanha respeita o Reinheitsgebot. Em 1987, os alemães tiveram que se curvar à pressão da União Europeia e liberar a importação de cervejas que não seguem a lei da pureza, para não prejudicar o livre comércio entre os países-membros.

No Brasil, os maltes e a cevada são todos importados, somente a levedura é que já está sendo produzida no Brasil, mesmo assim em pequena escala.

Cervejas consideradas puro malte são produzidas sem nenhum adjunto de cereais não maltados (milho e arroz são os mais comuns). Aqui no Brasil é permitido o uso de cereais não maltados em até 45% do total dos ingredientes da cerveja. É um recurso utilizado para baratear a receita e também para deixar a cerveja com características de sabor mais atenuadas, e com a coloração mais clara.

Nutricionistas alertam sobre riscos

A nutricionista alagoana Fabiana Perez é incisiva e opina: “Não importa se é bebida ou se é alimento. Se envolve transgênicos, as pessoas devem ser alertadas sobre seus perigos. Minha opinião é de que com quaisquer vestígios de alimentos transgênicos nos produtos, as pessoas deveriam visualizar bem um selo alertando”, disse Fabiana à Tribuna Independente.

“Como a legislação não exige a especificação de cada ingrediente que constitui a cerveja, as empresas utilizam o termo genérico ‘cereais não maltados’. Ao não colocar a denominação específica, deixam dúvidas quanto à composição. Portanto, é possível partir do princípio de que o milho está sendo utilizado sem que haja indicação da sua presença”, completa a também nutricionista Rayza Dal Molin Cortese, pós-graduanda em Nutrição pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Entre as nacionais, foi detectado milho na composição de 16 marcas, em quantidades equivalentes a 50% do mix de cereais adicionados à cevada. Essa proporção, aliás, contraria a legislação brasileira, que limita a quantidade de milho, arroz, trigo, centeio, aveia e sorgo a 45% do total da cevada utilizada. E justificaria a troca de nome dessas bebidas prevista em lei: cerveja de milho, cerveja de arroz, etc., acrescentando-se o nome do cereal com maior presença na formulação.

Mas seria essa opção adotada por um mercado gigante como o cervejeiro brasileiro, que movimenta todo ano algo em torno de R$ 74 bilhões, cerca de 1,6% do PIB, conforme pesquisa divulgada em março de 2016 pela Fundação Getúlio Vargas?

Dar nome aos cereais – especialmente se for milho – pode não ser considerado “bom negócio” para o milionário grupo de produtores da bebida alcoólica mais vendida no Brasil – cerca de 14 bilhões de litros por ano. Mas faz toda a diferença para os brasileiros que consomem, per capita, todo ano, o correspondente a 62 litros de cerveja.

Primeiro porque mais de 80% do milho cultivado no Brasil, segundo especialistas, está em lavouras transgênicas, semeadas com grãos modificados geneticamente. Com o argumento de aumentar a produtividade, a indústria das sementes alterou o DNA de plantas como o milho para supostamente aumentar a produtividade.

Na realidade, essa biotecnologia as transformou para duas coisas: resistir a quantidades cada vez maiores de agrotóxicos utilizados para matar plantas e indesejáveis à monocultura, que poderiam vir a comprometer essa propalada produtividade; ou para que produzam toxinas contra ataque de insetos que afetam a saúde humana.

INCERTEZAS

O problema é que, como essas plantas úteis para o equilíbrio ambiental e indesejáveis para a produção de larga escala vão adquirindo resistência contra alguns princípios ativos de agrotóxicos pulverizados, passam a ser aplicados outros venenos, mais potentes e em quantidades maiores.

As consequências à saúde humana, animal e ambiental devido a tamanha alteração genética em grãos que serão usados direta ou indiretamente na produção de alimentos ainda não foram dimensionadas o suficiente pela ciência. Dos poucos estudos, os resultados são preocupantes, para não dizer alarmantes.

“É melhor beber menos, mas beber melhor”

“Fabrício Drago, proprietário de estabelecimento em Maceió e produtor de cerveja artesanal, dá sua opinião sobre a polêmica: “Essas cervejas produzidas pelas grandes cervejarias são, sem dúvidas, mais leves, com pouco malte e pouco lúpulo. As grandes cervejarias usam até 45% de produto não maltado. O resto é xarope de milho e até arroz e, principalmente, porque têm pouco lúpulo, que dá o sabor, e são pouco aromáticas, mas são fáceis de beber”, explica Drago.

Na contramão dessa facilidade e pouca qualidade da cerveja, Drago completa. “As pessoas que já têm um gosto mais apurado e variado já não tomam mais esses produtos que a indústria praticamente nos obriga a tomar”, completa.

“Um dos objetivos para quem produz cerveja artesanal é beber menos, mas beber melhor. É um universo enorme para se aproveitar e explorar com os vários estilos que se produz com as cervejas artesanais”, defende o empresário.

Enquanto nas grandes cervejarias o tempo de fermentação é em média de sete dias, na artesanal o processo de fermentação e maturação do produto pode levar até um mês.

“A gente tinha uns amigos que já tomavam a cerveja artesanal, e a receptividade tem sido muito boa, apesar de o gosto ser muito diferente. Até aumentamos a produção para dobrar a venda”. disse Drago, que já tem um estabelecimento há um ano. “Apreciar a cerveja como se fosse apreciar um vinho”, completa.

Sobre como é a produção, Drago explica: “A grosso modo é molhar a cevada malteada e, no processo de cozimento, extrair o açúcar destes grãos, forma a mistura adocicada e joga o lúpulo nela. Depois coloca para fermentar e aí acontece a mágica, joga a levedura gerando álcool e CO2 na cerveja”.

“Não existe problema nenhum em uma cerveja não ser puro malte, o problema maior é que tipo de ingrediente ela usa além do malte e qual a quantidade. Grande parte do milho utilizado no mundo é transgênico. Se faz mal ou não, é uma outra discussão”, diz o engenheiro químico e cervejeiro do estabelecimento Raniel Soares.

“Olha, eu acho que existe sim qualidade nas cervejas nacionais porque elas têm um controle de qualidade pré-determinado, embora grande parte do milho seja transgênico”, completa Raniel.

Pesquisa sobre transgênicos contendo milho abalou mercado

O biólogo, pesquisador aposentado da Embrapa e ex-membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) José Maria Gusman Ferraz é coautor do livro Lavouras Transgênicas – Riscos e Incertezas. A obra, editada em 2015 pelo Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do então Ministério do Desenvolvimento Agrário, disponível para download, acaba de ganhar versão em inglês. Os autores analisam mais de 750 estudos desprezados pelas agências reguladoras de organismos geneticamente modificados em todo o mundo.

Ele destaca uma pesquisa divulgada em 2012 por pesquisadores franceses que abalou a opinião pública e o mercado de transgênicos em todo o mundo. Chefiados por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen Normadie, na França, os cientistas constataram danos ao fígado e rins e distúrbios hormonais em ratos alimentados com o milho transgênico NK603, da Monsanto. Além desses efeitos graves, foi detectado o desenvolvimento de inúmeros tipos de tumores.

O impacto da grande repercussão fez a pesquisa ser questionada e retirada da revista que a publicou originalmente (Food and Chemical Toxicology). Não só: a publicação teve seu corpo editorial reformulado, com a entrada de um nome forte indicado pela Monsanto. Os mesmos resultados, porém, foram publicados em detalhes depois na Environmental Sciences Europe, mostrando todos os danos causados.

Na época, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e outras entidades ambientalistas, de saúde e em defesa da agricultura orgânica, entre outras, pediram a suspensão da liberação comercial dessa variedade do milho.

“Mesmo com este estudo indicando claramente o risco, a CTNBio aprovou sua liberação comercial no país, em um claro desrespeito ao princípio da precaução, que preconiza que se existir possibilidade de risco, a empresa proponente tem de provar que o risco não existe”, afirma Gusman. “Um grupo minoritário dentro da comissão solicitou que, se existiam dúvidas, o estudo deveria ser refeito antes da sua liberação para comercialização. Mas como sempre, foi voto vencido pela maioria – ligada ao agronegócio –, que desprezou esta e outras evidências de que havia sim risco à saúde na liberação comercial.”

CONSUMIDOR E RISCO

Para especialistas e ativistas contra os transgênicos e seus perigos, todos os alimentos – bebidas inclusive – com quaisquer vestígios de transgênicos, deveriam receber o selo com a letra T em preto dentro de um triângulo amarelo, símbolo internacional da presença de organismos geneticamente modificados.

Mas a legislação, que no Brasil é criada por setores alinhados com o agronegócio que controlam o Congresso Nacional e setores do governo federal, não vai nessa direção. A nutricionista Rayza Cortese, que pesquisa organismos geneticamente modificados e a rotulagem de alimentos comercializados no Brasil, afirma que a legislação para o tema, estabelecida pelo decreto 4.680/2003, estabelece que “todos os alimentos (e as bebidas alcoólicas são consideradas alimentos) e ingredientes alimentares que contenham ou sejam produzidos a partir de OGMs, com presença acima de 1% do produto, devem ser rotulados”. No entanto, o símbolo não aparece em nenhuma embalagem de cervejas que contenham milho.